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Antes de adentrarmos a Semana Pedagógica 2024 da Rede Alix, convido você, caro leitor, a uma introspectiva viagem pela memória. Este exercício, embora simples, é importante para o nosso propósito. Visa nos deslocar no tempo, com o objetivo de alimentar nossa imaginação. Para aprimorar essa experiência, sugiro uma rápida incursão pela internet: procure e deixe-se levar pelos primeiros minutos do poema sinfônico ‘Assim falou Zarathustra’[1], de Richard Strauss[2].
Embalado pela música – ou independente dela –, permita-se navegar até as cenas do filme “2001, Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick. Talvez as harmonias já tenham levado seus pensamentos em direção a este marco cinematográfico. Caso não, é provável que sua memória ainda guarde vestígios dessa obra-prima. Todos fomos expostos a uma de suas cenas emblemáticas: após tocar um misterioso monolito negro, um antepassado humano com trejeitos simiescos descobre usos inovadores para um osso. De um simples consumidor de vegetais, acossado por predadores e rivais, testemunhamos, em cores pastéis e pelos pretos o hominídeo transformar-se de uma criatura dominada pelo medo e pela necessidade, para um ser capaz de usar a tecnologia para melhorar significativamente sua qualidade de vida[3] - ora garantindo fontes de alimentos antes impossíveis, ora subjugando seus rivais. Nesse primeiro ato da película de 1968, violento, mas revelador, com o sugestivo título “A Aurora do Homem”, Kubrick simbolicamente ilustra o despertar da consciência e da inovação - temas profundamente entrelaçados com o propósito da educação.
Assim como em um filme, através de um fade in - quando a imagem vai gradualmente se tornando mais visível -, somos transportados para a manhã de 22 de fevereiro de 2024, no Bairro de Pinheiros, em São Paulo, em um auditório lotado de professores e professoras, no Colégio Madre Alix. Somos todos membros dessa comunidade educacional vibrante, e estamos reunidos para a abertura da Semana Pedagógica da Rede Alix, um evento que lança luz sobre nossos desafios, delineia nossos objetivos e nos nutre com a energia vital do compartilhamento e da união.
No anfiteatro, entre as inúmeras fileiras de docentes, o burburinho eloquente a respeito de variados temas da educação enche o espaço de uma energia vibrante e palpável. O canto ensurdecedor de um enxame de cigarras ao final da primavera poderia ilustrar a intensidade das nossas conversas. Estamos ansiosos pelo início das atividades. Sabemos, de antemão, que o Professor Bernard Charlot, livre-docente em Educação pela Universidade de Paris X Nanterre, titular Emérito da Universidade Paris 8 e autor de dezenas de livros, nos brindará com um diálogo rico de ideias e colocará várias pulgas atrás de nossas orelhas – ou, talvez, um grande monolito!
Precedendo Charlot, há um maestro para a trilha sonora do nosso encontro. Assim como a música de Strauss conduz o início do filme de Kubrick, a voz potente e por vezes emocionada da Irmã Arlene nos lembra que fazemos parte de uma Rede sem igual, um grande tecido vivo que soma mais de 44 mil estudantes em vários cantos do mundo.
Através da visão de Pedro Fourier, Irmã Arlene nos desafia a ver as pessoas não apenas por suas atuais condições, mas pelo que elas têm o potencial de se tornar, ressaltando a importância de fomentar um pacto educacional orientado para uma educação verdadeiramente abrangente e inclusiva.
Seus olhos escuros por trás dos óculos captam os nossos. Sob a perspectiva de uma pedagogia do encontro, do desejo e do encorajamento, ela nos desafia: quem somos, quem queremos ser, o que desejamos fazer de nossas vidas como educadores? Como a esfinge que guardava a entrada de Tebas – mas sem as carnificinas do “decifra-me ou te devoro”, ora bolas! –, Irmã Arlene nos instiga a refletir, tocar o monolito, sair da caverna para a luz.
Há um corte rápido e a próxima cena da nossa película se apresenta: Charlot, direto de sua casa, é projetado em cores vivas na tela principal e se torna o cerne de nossa jornada intelectual. Suas palavras nos guiam através de uma reflexão profunda sobre os desafios e as oportunidades da educação contemporânea. Nos alimenta com inúmeras ideias e perguntas, muitas delas frutos de uma de suas mais recentes publicações, o livro “Educação ou Barbárie? Uma escolha para a sociedade contemporânea”. Educação ou Barbárie é o script e cenário de nosso longa-metragem.
O ar frio do auditório se carrega de eletricidade estática enquanto o ouvimos atentos: terrorismo, racismo, feminicídio, tortura, milícias, assassinatos de jornalistas e uma lista infindável de elementos que reforçam a ideia de que a barbárie está de volta. Charlot, com suas palavras perspicazes, nos faz refletir sobre a "barbárie" moderna, enfatizando que a verdadeira selvageria surge quando negamos a humanidade do outro. Contudo, ele não nos deixa desamparados nas sombras. Ao contrário, segura nossas mãos e nos guia, reiterando que o ser humano é, acima de tudo, uma constante aventura.
Do osso à arma, mas também do grão ao pão, eu penso com meus botões!
Como enfrentar as provocações de Charlot, que, com seu marcante sotaque francês, nos questiona: "Sabemos ouvir, mas o que temos a dizer aos jovens?" Essa pergunta, aparentemente simples, desafia nossa percepção e prática educacional. Ela nos impulsiona a revisitar o propósito da nossa missão educativa e a quebrar o dualismo entre a norma e os verdadeiros desejos humanos, afastando-se da ideia equivocada de uma "natureza humana" corruptível.
Das caixas de som, ouvimos outra indagação de Charlot: “Qual é o papel do professor na aventura humana?” Gradualmente, ele esboça nossa identidade e trajetória como seres únicos, enfatizando a necessidade de reavaliarmos nosso vínculo com o mundo, já que somos simultaneamente criadores e criações de um "mundo humano", um espelho do conhecimento acumulado que fundamenta a educação.
À medida que refletimos sobre nossa contribuição a essa odisseia, somos confrontados com uma questão correlata: o papel da tecnologia na sociedade contemporânea – os smartphones, os computadores, as plataformas digitais. Charlot sustenta que a tecnologia, por si só, não é a fonte de nossa corrupção através dos séculos, assim como o osso ou o monolito não corromperam o ser primitivo no épico de Kubrick.
Portanto, ao reconhecermos que nossa singularidade enquanto espécie deriva de como nos relacionamos com nosso meio, entendemos que é fundamental para as novas gerações adotarem esse universo tecnológico de maneira consciente e humanizada. E, desta vez, ecoando como o grilo falante de outra história, a inquietude na minha consciência se torna uma exortação clara dizendo que são os educadores que devem guiar este percurso, iluminando o caminho com sabedoria e humanidade.
Nossa sessão vai terminando. Em poucos minutos, migraremos para diferentes espaços, prontos para novas atividades. Contudo, antes que as luzes reacendam, que o Sol se deite atrás do monolito negro, e que o último diálogo com Charlot se disperse num simples clique, os créditos da nossa experiência vão imaginariamente rolando e ficamos com uma mensagem que ressoa com o ethos de nossa Rede: Como seres em constante educação, devemos adotar a solidariedade como princípio orientador, reconhecendo que a educação é, invariavelmente, a humanização.
A Semana Pedagógica transcende a mera formalidade de um evento; é um chamado à reflexão, à ação e ao compromisso com o futuro de nossa espécie.
[1] A escolha da música também não é por acaso. Em “Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém”, Nietzsche aborda a moralidade, a vida e coloca os seres humanos entre os as pegadas dos macacos e do "além-do-homem" (Übermensch)
[2] Sugiro o concerto de 2019 da Orquestra Petrobras, realizado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro (https://www.youtube.com/watch?v=qUVdZow2hv4).
[3] A mesma cena foi “relida” no início do filme Barbie, de 2023, da diretora Greta Gerwig. (https://youtu.be/I6vPuIMAOlA).
Nasci no Rio de Janeiro, no ano do tricampeonato do Brasil. Sou filho de uma assistente social, com quem aprendi o valor das relações humanas e da compaixão com os mais desfavorecidos. Sou também sobrinho, neto, primo, pai e marido de um conjunto de mulheres fabulosas, geniais, potentes e atuantes, de sociólogas, médicas, arquitetas, biólogas, educadoras e estudantes. Nesse borbulhante caldo de cultura e gente, cresci em Santos, torrando meu nariz branquelo ao sol dos dias de praia, em uma época em que não havia protetor solar. Fiz graduação em Ciências Biológicas na Universidade Católica, onde encontrei meu amor, Beatriz - e, juntos, já fizemos 35 translações! Mais tarde, fui para o interior de São Paulo fazer mestrado na Unesp, embora estudasse peixes do litoral. Dos peixes, num pulo, passei para o bicho-homem e comecei a lecionar. Meu doutorado em Educação Matemática na PUC-SP surgiu porque sempre quis compreender por que e como as emoções, crenças, atitudes, valores e identidade impactam tanto o ensino e a aprendizagem. Há 27 anos transito entre os papéis de professor, coordenador e formador de professores em escolas privadas e públicas. Além da Beatriz, uma menina, um garoto, um cachorro e um gato formam meu núcleo diário. Escola, fotografias, filmes, séries, livros e histórias contadas por pessoas queridas me alimentam nessa jornada.
“Não considerar as pessoas como elas deveriam ser, mas como elas são ou podem ser.”
Pedro Fourier
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